Author Gustavo Audi

Gustavo Audi é formado em Comunicação Social pela UFRJ e possui especialização em Mídias Digitais pela Estácio de Sá. É Mestre e Doutorando em Comunicação pela UERJ com projetos de pesquisa voltados aos Games Studies, além de possuir artigos científicos publicados em revistas acadêmicas. É jogador de vídeo game desde o Atari e joga "profissionalmente" desde que ingressou no Mestrado, em 2010.


Lançamento do Livro: Imergindo no Mundo do Videogame


Por que alguém passa tanto tempo jogando videogame? O que a faz imergir neste mundo fantástico e divertido? O que prende sua atenção durante horas sem interrupção?

Estas e outras questões são abordadas no livro Imergindo Mundo do Videogame, que expõe características do jogo narrativo que agem sobre nossas mentes criando um verdadeiro transe. Em videogames narrativos de aventura, o jogador é levado a um estado mais do que apenas concentrado. Ele ingressa naquela realidade de um jeito que seus sentidos são estimulados por todos os lados.

Os mundos criados pelos jogos eletrônicos são mentiras mascaradas de realidade, fantasias temperadas com pseudocontrole. A criação é livre, limitada apenas pela imaginação. Como jogador, entro em histórias de ficção, assumo personagens completamente diferentes de mim e tomo decisões que podem destruir, ou fabricar, mundos. Neles, posso fazer coisas impossíveis, visitar lugares fantásticos, controlar o outro, agir como o outro. Ser o outro. Não estou preso às mesmas regras da vida cotidiana.

O jogo permite autonomia sobre as ações ao mesmo tempo em que me faz responsável por elas. Eu sou a principal personagem em uma sociedade ilusória e surpreendente. Nada de fato existe, mas tudo é feito para que eu me sinta inserido em um lugar real.

61EGv4COdTLO uso de histórias, agência, navegação, personagens, objetivos e linguagem são alguns dos elementos presentes nos videogames que conseguem nos isolar de ambientes cada vez mais frenéticos. Acionar corretamente os sentidos eleva muito as chances de alcançar essa sensação de deslocamento e pertencimento ao mundo imaginário.

Essa visão reconhecidamente apaixonada, porém, não é compartilhada por todos. Muitas vezes, jogos são depreciados e alvo de preconceitos: coisa de criança, passatempo de desocupado, estimulador de violência, isolador social. Joguinho. As pessoas têm o costume de diminuir algo que não conhecem ou não admiram.

Independentemente de quem esteja lendo, seja jogador, pesquisador, desenvolvedor ou apenas curioso, Imergindo no Mundo do Videogame pretende revelar a lógica estratégica por trás dos videogames, uma mídia que consegue construir um ambiente imersivo perante um mundo cada vez mais caótico e disperso.

Pesquisar o tema foi divertido. Jogar foi divertido. Escrever o texto foi divertido. E espero que ler este trabalho seja tão divertido e prazeroso quanto foi confeccioná-lo. Espero todos vocês, e quem quiserem chamar, no lançamento!

Serviço: Lançamento do Livro Imergindo no mundo do Videogame
Quando: 07 de Julho as 19hs
Onde: Livraria Da Travessa Botafogo
Endereço:
Voluntários da Pátria, 97, Rio de Janeiro/RJ

Link do evento no facebook


Sem vilões. Sem heróis. Apenas escolhas. Conheça a Multiperspectiva da Narrativa no game Sonder


Tenho um sonho de que um dia será possível o desenvolvimento de um jogo em que realmente sou um ator dentro da história. Isto não quer dizer que terei controle total sobre o universo. O mundo ficcional deve existir de forma autônoma e serei apenas mais um habitante com poder de alterá-lo. Infelizmente, isto ainda é um sonho.

O que podemos fazer hoje é enganar o jogador e simular a liberdade de escolha. De fato, ela não existe, pois qualquer decisão está programada. A arte do design de jogos está em balancear o controle indireto a fim de criar e manter a ilusão de autonomia. Um possível exemplo disto é game Sonder.

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Em desenvolvimento pela Kamai Media, Sonder é um jogo de aventura em terceira pessoa com múltiplos protagonistas – o jogador pode controlar qualquer um. A construção da narrativa ocorre com base nas escolhas individuais de cada um. O interessante é que os personagens não estão isolados em histórias independentes, mas inter-relacionados em uma história única. Os eventos de cada um influenciam os eventos dos outros. A história não é contada ao jogador, mas são fornecidos o ambiente, o personagem e uma situação interessante; cabe a ele tomar decisões para a narrativa se desenrolar.

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Rashomon (1950)

A multiperspectiva de Sonder lembra a estrutura narrativa de Rashomon (1950), mas com o acréscimo de características lúdicas. No filme de Akira Kurosawa, a história é contada por quatro personagens diferentes. Cada um fornece uma versão de um estupro e assassinato. Como são relatos contraditórios, fica bem difícil (ou impossível) descobrir a verdade. Isto demonstra como a mudança de perspectiva altera a noção de realidade.

Esta subjetividade na percepção de um evento está presente em Sonder. Ao se projetar sobre determinado personagem, o jogador se prende ao seu ponto de vista particular, logo, age de acordo com suas crenças e julgamentos. Quando muda de ângulo, o jogador se encontra em um modelo mental completamente diferente, capaz de tomar decisões divergentes daquelas empregadas anteriormente.

Conceitualmente, interpretar papéis e tomar decisões é essencial ao Jogo. E saber que cada decisão não está solitária em seu próprio esquema dramático é bem instigante. Sonder, felizmente, propõe-se a fazer isto. Contudo, o jogo ainda está em pre-alpha, ou seja, toda a premissa e descrição fornecidas pelos desenvolvedores podem não sair como o esperado.

Terei de esperar um demo jogável para saber se o sonho está próximo de se realizar ou se ainda terei de esperar mais um pouco…


A Abordagem Jornalística Sobre Games


pesquisa-game-brasil-2015-jornalística-marketing gamesSempre que alguém vê alguma reportagem na TV ou no jornal sobre games, essa pessoa vem falar comigo. Acho isso ótimo, indica que realmente dão importância ao campo que estudo. Por outro lado, por fazer parte do universo gamer e estudá-lo, tais abordagens me irritam um pouco…

Recentemente, veio ao meu conhecimento uma reportagem do Bom Dia Brasil, transmitido pela TV Globo (para assisti-la, clique aqui), a respeito da Pesquisa Game Brasil 2015, realizada pela ESPM e Sioux, sobre o perfil do gamer brasileiro em 2014. Poderia ter sido uma boa experiência, que somaria a minha própria pesquisa. Infelizmente, a TV aberta manteve sua incompetência e ignorância a respeito do tema.

Sei que a TV tem de ser dinâmica e também não estou afirmando que todos sejam especialistas no assunto, mas acredito que o jornalismo precisa minimamente entender sobre aquilo que está transmitindo. Percebe-se claramente que o trabalho de apuração baseou-se apenas na leitura seca dos dados estatísticos. Não houve um mínimo de aprofundamento ou envolvimento com o tema. O tom da matéria não foi descontraído (consequência natural da essência divertida do jogo), foi extremamente idiota e calcado em antigos paradigmas preconceituosos.

A jornalista (será que é mesmo? Não sei…) brinca que jogar com os filhos pode ser uma desculpa para se atirar no vício. Sério? Uma reportagem que pretende passar informação baseada em evidências vai utilizar um comentário pessoal e, além disso, completamente imbecil? E a pérola “se não dá para proibir, jogue com eles”? Os jornalistas vomitam conclusões com base em suas próprias visões limitadas e subjetivas…

Seguindo este caminho raso, a matéria engana em suas afirmações. Por exemplo, ela dá a entender que os pais jogam com seus filhos e apenas o fazem por isso. Entretanto, o estudo contou com a participação de 909 pessoas de 14 a 84 anos. 92,7% afirmaram que gostam de jogar e 82% dos pais entrevistados jogam com os filhos. Ao cruzarmos as pessoas que gostam de jogar com os pais entrevistados, teríamos uma maioria de pais que jogam, independente de ser com os filhos. A conclusão da pesquisa é que a maioria das pessoas entrevistadas gostam da atividade e, inclusive, a praticam com seus filhos, elevando a abrangência do envolvimento com o universo.

jornalismo-jornalística-marketing gamesA precipitada afirmação que os pais jogam apenas com os filhos leva a outro exemplo de falta de conhecimento. A repórter ao afirmar que “… mas 61,5% disseram que controlam” dá a entender que os pais estão lá apenas como uma forma de companhia, para passar o tempo com os filhos, ou, de fato, controlar a atividade.

E, como não podia faltar, temos a incontestável (e vazia e frágil e incompleta e fraca) “recomendação dos especialistas”. É uma ferramenta dos jornalistas quando não querem apurar de verdade uma informação, correndo atrás de fontes variadas e cruzando dados. Basta generalizar e deixar na terceira pessoa do plural…

A conclusão correta do estudo (e que está presente na apresentação dos autores) é que “pais e filhos interagem juntos com jogos eletrônicos (82%)”. Este é o fato. Qualquer coisa além disso é especulação – coisa que eles não podem fazer, mas eu posso, pois não sou jornalista ou trabalho em uma empresa do campo.

No geral, contudo, a própria pesquisa é fraca, pois tira conclusões gerais juntando em um mesmo bolo indivíduos de diferentes classes sociais, faixas etárias e localidades, como se isso não impactasse no próprio objeto investigado. E, também, falta informação relevante para que seja possível, de fato, traçar o perfil do gamer.

Mas esse é o nosso jornalismo: quando não diz o óbvio, diz besteira…


Batman Arkham Origins e a utilização da narrativa


Batman: Arkham Origins é o terceiro jogo da série iniciada em 2009 com Arkham Asylum e sua sequência de 2011, Arkham City. A história em Arkham Origins se passa alguns anos antes dos ocorridos nos dois jogos anteriores (uma forma de não deixar uma franquia morrer é voltar no tempo e mostrar o início de carreira dos personagens). Batman está com a cabeça a prêmio e é perseguido tanto pela polícia quanto pelos criminosos. Sua missão é capturar Black Mask, que, além de impulsionar o crime em Gotham, ainda lançou a recompensa pela captura do herói.

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Configurado como mundo aberto, o enredo principal é seguido através de objetivos espalhados pelo mapa. A história é acompanhada indo a pontos específicos para iniciar novas missões – a cada missão bem sucedida, cutscenes com mais conteúdo são liberadas e um novo ponto no mapa é acrescentado.

pinguimSomam-se à trama principal, por ser um mundo aberto, diversas missões paralelas – como a perseguição ao Charada ou ao Pinguim. Assim, a narrativa final do jogo é formada pelo desenho geral da mainquest e sidequests. Apesar de aumentar o tempo de jogo, não complexifica a construção e estrutura narrativas. Não há escolhas dramáticas, apenas escolhas exploratórias do mapa. O jogador é limitado a escolher se faz ou não os objetivos secundários e, se quiser saber sobre a história, tem de cumprir os principais.

Aqui, há uma história já pronta, mas oculta e fragmentada em Gotham City. A força da exploração e combate é muito maior que a simples recompensa de saber o contexto daquilo tudo. A narrativa, desta forma, perde sua importância, pois não justifica a ação em si.

Por outro lado, e isto pode parecer paradoxal, o poder da narrativa é grande, apesar de indireto, nesta série. A jogabilidade é praticamente a mesma nos três jogos: mecânica de combates, evolução do personagem e desbloqueio de habilidades, tipo de missões paralelas, etc. Contudo, são considerados jogos diferentes. A história, neste caso, é o que os diferencia. Sem ela e seus elementos constituintes (personagens, biografias, causalidade, ambientes…), o jogo seria o mesmo.

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Para ficar mais didático, vamos colocar, de maneira bem resumida, as características lúdicas e narrativas que compõem os três jogos em uma tabela. A relação é sobre o primeiro jogo da série, o Batman: Arkham Asylum.

Conclui-se, portanto, que em Batman: Arkham Origins, a narrativa é cinematográfica e embutida ao longo do gameplay como uma espécie de recompensa pelas ações corretamente executadas. Apesar de ser inteiramente definida pelo desenvolvedor do jogo, inviabilizando qualquer tentativa de controle dramático por parte do jogador, a história ganha importância por ser o principal motivo de diferenciação. O jogo se torna único em função da presença da história.

A estratégia comercial fica clara: com um sistema de combates e evolução de personagem já conhecidos e admirados, distingui-se através do conteúdo dramático. É o “mais do mesmo” que apostou nos elementos vencedores.

E isto é ruim? Claro que não. Enquanto lançarem novos jogos da série, iguais no sentido lúdico, mas diferentes na narrativa, serão $60.00 gastos sem arrependimento (versão nova para o PS3). Shut up and take my money.

Narrativa em Batman Arkham Origins copy


A História da Arte retratada nos Games


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Navegando pela web, deparo-me com uma deliciosa surpresa: um jogo cuja temática é a História da arteAvant-Garde. Desenvolvido por Lucas Molina, o jogo é o produto de um artigo científico sobre o ensino de história através dos games. Avant-Garde é um RPG no qual o jogador experimenta a vida parisiense no fim do séc. XIX, em pleno florescimento do impressionismo. O objetivo é crescer como artista em meio ao surgimento das vanguardas artísticas.

Apesar de, originalmente, ter como finalidade o ensino de história, o jogo vai além disso, pois o conteúdo é passado narrativamente e em sintonia com as especificidades de um jogo. O jogador está imerso na realidade histórica: frequenta os cafés de Paris e conversa com outros artistas, como Monet, Manet, Bouguereau e Courbet, vai à Academia estudar e praticar seu desenho ou ao seu Atelier produzir obras para expor nos Salons.

A mecânica do jogo envolve ir à Academia para melhorar as habilidades (forma, perspectiva, composição, anatomia, cor e expressão) e, com isso, pintar quadros mais interessantes. Quanto melhor a obra, mais ela vale no mercado e maior a probabilidade de ser exposta nos Salons (aumentando seu valor também).

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É um jogo simples, contudo, extremamente divertido. Não só por permitir a evolução do personagem, mas principalmente por permitir o contato direto com o contexto histórico. “Conversar” com artistas famosos é gratificante!

história-da-arte-marketing-games-3Porém, Avant-Garde não foi o único, Molina também desenvolveu Painters Guild. Passado na Itália renascentista, o jogador controla o jovem Leonardo da Vinci, ainda um aprendiz no atelier de Verrocchio. O objetivo é evoluir as habilidades de Leonardo para superar seu mestre, atendendo a encomendas dos aristocratas italianos.

história-da-arte-marketing-games-4O diferencial destes jogos é a temática. Imergir naquela realidade artística de maneira interativa é muito interessante. Avant-garde e Painters Guild são mais que simples serious games, pois, apesar da proposta direta educativa, conseguem informar de maneira indireta e contextualizada. Ou seja, você pode jogar sem propósito educativo que a diversão está garantida.

E viva a narrativa como ferramenta pedagógica!


De onde vem o nosso fascínio pelos Games de Guerra?


Durante o planejamento desta semana especial sobre os 100 anos do início da Primeira Guerra Mundial, questionei-me sobre o que poderia escrever. Comecei a pensar sobre jogos que abordam esta temática e cheguei a seguinte indagação: qual a relação entre a guerra e o jogo?

guerra-no-jogoMais do que abordar apenas a 1ª Guerra Mundial, os desenvolvedores de jogos eletrônicos possuem fascínio pela guerra em geral. Apesar da maior parte dos jogos preferirem a Segunda Guerra, há diversos títulos sobre o período de 1914 a 1918, como Microsoft Flight Simulator – World War 1 combat mission mode (PC, 1989), Wings (Game Boy Advance, 1990), History Line: 1914-1918 (PC, 1992),Evasive Action (PC, 1993), The Last Express (PC, 1997), Red Baron II (PC, 1997), Hogs of War (PS, PC, 2000), 1914: The Great War (PC, 2002), WWI: The Great War (PC, 2003), WWI Medic (PC, 2004),The Operational Art of War III (PC, 2006), Covert Front: Episode One – All Quiet on Covert Front (PC, 2007), Rise of Flight: The First Great Air War (PC, 2009), NecroVisioN (XBOX 360, 2009), Toy Soldiers(XBOX 360, 2010), Darkest hour (PC, 2011), Commander: The Great War (PC, 2012), Sid Meier’s Ace Patrol (PC, 2013), Verdun (PC, 2013), Valiant Hearts (PC, PS3, PS4, XBOX One, 2014)…

De fato, uma parte considerável dos jogos lançados aborda, de alguma maneira, a guerra, seja entre países ou reinos, planetas, gangues, famílias etc. Para entender a questão da relação entre jogo e guerra, apelei para um dos autores mais usados nos estudos sobre jogos: Johan Huizinga. Huizinga era um historiador holandês nascido em 1872. Quando os alemães invadiram a Holanda, foi preso e levado para um campo de concentração.  Em 1º de fevereiro de 1945, morreu, na pequena cidade holandesa de De Steeg, confinado pelo exército nazista.

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Johan Huizinga

Para ele, diversos aspectos da cultura medieval eram, em sua essência, formas de jogo. Em 1938, com a publicação de Homo Ludens, Huizinga abordou o problema diretamente: até que ponto a cultura humana é resultado do jogo e em que medida ela se expressar nas formas de jogo? Não vamos abordar todo o livro aqui, entretanto, é importante citar apenas esta posição inicial do autor em relação ao jogo e a cultura. O homem primitivo acreditava que toda cerimônia bem celebrada ou todo jogo ganho de acordo com as regras está ligado à aquisição pelo grupo de uma nova prosperidade. A cultura surge sob a forma de jogo. Mesmo atividades que visam satisfações imediatas vitais, como a caça, tendem a assumir, nas sociedades primitivas, uma forma lúdica.

“Em suas fases primitivas a cultura é um jogo. Não quer isto dizer que ela nasça do jogo. Ela surge no jogo, e enquanto jogo, para nunca mais perder esse caráter.”

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O elemento lúdico sempre esteve presente. A regra geral é que o jogo fique em segundo plano, oculto por detrás dos fenômenos culturais, mas passível de retornar a qualquer momento – uma atividade pode ser originada no jogo e ir perdendo sua forma lúdica original; entretanto isso não retira o lúdico de sua constituição. Ao longo de sua obra, o jogo é relacionado com os rituais religiosos; festas; guerra; política; justiça; arte; filosofia; conhecimento e poesia.

“O ritual teve origem no jogo sagrado, a poesia nasceu do jogo e dele se nutriu, a música e a dança eram puro jogo. O saber e a filosofia encontraram expressão em palavras e formas derivadas das competições religiosas. As regras da guerra e as convenções da vida aristocrática eram baseadas em modelos lúdicos.”

Huizinga inclui, no conceito de jogo, a competição (além da brincadeira e do passatempo), originalmente fora de acordo com os gregos antigos (a importância e seriedade da competição eram tão grandes que possuía um conceito próprio). Para ele, a competição, que engloba desde os jogos mais triviais até os torneios mais primitivos, possui todas as características formais do jogo – atividade consciente exterior à vida habitual que visa à vitória e/ou status social/religioso, prazerosa, praticada dentro de certos limites de tempo e espaço e segundo regras.

“O jogo é um combate e o combate é um jogo.”

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É perfeitamente aceitável que consideremos a Guerra como um combate. Logo, a guerra é uma espécie de jogo, tanto quanto uma simples luta. A guerra é um subproduto do agon. O impulso agonístico (competitivo) não se perde, pois é inato. O desejo inato de ser o primeiro continuará levando os grupos de poder a entrar em competição. Dá-se início à guerra a fim de obter uma decisão de valor sagrado, pela prova da vitória ou da derrota. Para Huizinga, a competição está ligada à vitória, honra, virtude, nobreza ou glória. Na maioria dos casos, os verdadeiros motivos das guerras podem ser encontrados menos nas necessidades de expansão econômica, do que no orgulho e no desejo de glória, de prestígio e de todas as pompas da superioridade.

“As tendências modernas para exaltar a guerra, que tão lamentavelmente nos são familiares, levam-nos de volta à concepção babilônica e assíria da guerra como ditame divino para exterminar povos estrangeiros, para maior glória de Deus.”

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Voltemos, então, à questão inicialmente proposta, sobre a relação da guerra com os jogos. A guerra está intimamente ligada à linguagem lúdica; esta, por sua vez, é intrínseca a própria cultura. Logo, o jogo é um excelente formato para representar algo que está na essência do ser humano. A guerra como competição envolve regras, objetivos, imersão (em outra realidade), domínio e superação de habilidades e, acima de tudo, a possibilidade de ser vitorioso – tudo isto presente na essência do jogo, eletrônico ou não. Enquanto produto de entretenimento, não importa qual guerra será escolhida como pano de fundo do jogo – importante é responder à demanda por conflitos natural ao homem. Talvez, a escolha desta temática não seja o movimento inicial, mas um reflexo natural à mecânica do jogo, algo que encaixa perfeitamente em sua estrutura essencial.

A frase que diminui a vitória, pois afirma que “o importante é competir” está errada. Competir pressupõe o objetivo de vencer. Assim, eu colocaria da seguinte forma:

Perder não é problema desde que se queira ganhar, pois o importante é jogar

HUIZINGA, Johan. Homo Ludens:

O jogo como elemento da cultura.
São Paulo: Perspectiva, 2007.
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A Arte do Fracasso – Se sabemos que vamos perder, por que insistimos no jogo?


A visão de uma Bonfire em Dark Souls é a redenção. Depois de quase morrer diversas vezes, passar por inimigos quase impossíveis de derrotar e acumular milhares de almas, aquela pequena luz traz a tranquilidade tão sonhada. Pronto. As almas estão garantidas. Pelo menos até você se distanciar da fogueira…

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Dark Souls e sua sequência são considerados jogos extremamente difíceis. São horas de gameplay compostos por inúmeras mortes do personagem. Por outro lado, é um jogo extremamente divertido e um sucesso no mercado. Se sabemos que vamos perder, por que insistimos no jogo?

Em A Arte do Fracasso, (no original The Art of Failure), Jesper Juul nos introduz o “Paradoxo do Fracasso”: nós geralmente evitamos o fracasso; nós falhamos quando jogamos video games; nós jogamos, apesar de saber que experimentaremos algo que normalmente evitamos.

Ou seja, perder faz parte do processo de jogar. E, no caso de Dark Souls, isto é ainda mais evidente: você morrerá, isto é certo, e morrerá centenas de vezes. Entretanto, a possibilidade de derrota é fundamental para a experiência, pois estimula o jogador a correr atrás, a melhorar sua performance. Obviamente, o segredo está no equilíbrio: é preciso dificultar o progresso do jogador, mas também é essencial dar-lhe a chance de se redimir.

O importante é manter a dificuldade no âmbito da habilidade humana em executar a ação. Se o sistema é o culpado pela derrota, não há nada que o jogador possa fazer para vencê-lo. Contudo, se a culpa for da inaptidão do jogador, então este ainda pode dar a volta por cima.

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Ninja Gaiden – NES

Jogos anteriores à década de 1980 e 1990 não eram feitos necessariamente para o jogador concluí-los. Alguém chegou ao final de River Raid? Pitfall? Ninja Gaiden? – era preciso muita paciência, vidas extras, passwords e códigos Konami para isso. Já os jogos atuais estão cada vez mais fáceis; quase todas as produções permitem que o jogador chegue ao final. É uma questão de tempo, não de habilidade.

Dark Souls, por sua vez, trouxe de volta a necessidade de se aperfeiçoar a fim de concluir os objetivos. A cada derrota, o jogador é obrigado a repensar sua estratégia. Raramente o macete de ficar batendo sem parar funciona com os chefes neste jogo (uma porrada deles e já era…). Não há dicas ao longo do gameplay, com indicações na tela de onde ir e o que fazer – não há nem um mapa… Um pequeno tutorial lhe passa os comandos e o objetivo principal e só. O resto é com o jogador.

Há pessoas mais radicais, que ainda criticam a existência do tutorial. Para elas, o aprendizado deve ser feito através de tentativa e erro. Mas não precisamos ser assim tão extremos… Pense no tutorial como uma ferramenta democrática, que permite que qualquer pessoa seja capaz de iniciar uma partida. É comercialmente benéfico e ajuda o jogador, mesmo o mais experiente, a entrar no clima e imergir no mundo do jogo. Não será isso que tornará o jogo mais ou menos fácil.

A presença de um período de aprendizado não exclui a possibilidade de derrota no jogo, apenas colabora para o conhecimento de sua lógica. A chance do fracasso, e a derrota em si, criam suspense e tensão em função da incerteza sobre o universo do jogo. E isso é fundamental para o divertimento.

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The Art of Failure: An Essay on the Pain of Playing Video Games
Jesper Juul
Playful Thinking series
176 páginas
The MIT Press; 1st Edition


A falta de uma Narrativa direta pode ser um atrativo de um jogo?


Como um apaixonado por histórias, sempre busco jogos que possuam, minimamente, um enredo. No entanto, não sou restritivo quanto a isso e gosto também da ação. No fim, posso até abrir mão de uma história complexa ou da participação direta nas escolhas dramáticas, desde que a ação, o controle do personagem, os gráficos e o som sejam de qualidade. Não precisa ter alta definição, cópia perfeita da realidade, mas pelo menos precisa ser verossímil, convincente ou inovador.

O uso da narrativa não exclui os aspectos lúdicos, pelo contrário, contextualiza e fortalece-os. O jogo, para ser caracterizado como tal, precisa de participação, que, através da narrativa, torna-se verossímil. Além de criar um ambiente atrativo emocionalmente, a história fornece a estrutura lógica para a disposição das regras do jogo (objetivos, poderes, personagens etc).

kratosDesta forma, uma combinação equilibrada entre narrativa e ação será sempre valorizada. Quando uso “equilibrada” não significa meio a meio, mas sim, o uso dosado de todos os elementos de acordo com o que o jogo se propõe. Em God of War, não interferimos na história, apenas avançamos pelos obstáculos e, como recompensa, vemos cutscenes com a narrativa. Isso não difere muito do Mario Bros.: o gameplay é linear em ambos os jogos, a diferença é que em Mario o mundo é um 2D honesto, e em GoW, o jogo simula tridimensionalidade – de fato, Kratos não opta por caminhos a seguir, não há desvios ou atalhos. Experimente virar a esquerda de repente para ver se você consegue… O “correto” é seguir o que o sistema lhe apresenta. Nos momentos em de dúvidas, o sistema faz um tour com a câmera para você aprender o único caminho existente.

De fato, o jogo não precisa de história para ser jogado, como afirmam os ludólogos de raiz. Um jogo como GTA 4, apesar de possuir um enredo rebuscado, não obriga ao jogador acompanhá-lo, ele pode seguir as missões e finalizar o jogo sem precisar entender a trama (principalmente se não souber outro idioma). Entretanto, ao acrescentar um enredo que justifica as regras e objetivos, a narrativa passa a ocupar uma posição de destaque. Nos jogos, uma ação só se completa quando envolve a tarefa em si e uma justificativa contextual – faz-se algo baseado no enredo. É possível que um jogador chegue ao final do jogo sem notar o fundo narrativo, no entanto, a completude do evento só será realmente sentida, e justificada, através da narrativa – do contrário, a experiência girará unicamente em torno da dicotomia perder/vencer.

Um excelente exemplo da força da narrativa é Limbo. A jogabilidade é simples (o personagem apenas pula e segura objetos) e os puzzles não exigem muito raciocínio. A narrativa, por sua vez, já se comporta de outra forma. O jogo começa com o personagem deitado em uma floresta; o cenário é preto e branco e usa vários trechos desfocados, criando um clima sombrio. Parece ser um menino, todo preto (uma sombra) e com os olhos brancos e brilhantes. A partir daí, o jogador deve guiar o personagem pela floresta e outros locais, com o mesmo clima enigmático, vencendo obstáculos.

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O incrível é que, aparentemente, não há narrativa, mas, prestando atenção, há dois elementos que viabilizam uma interpretação dramática: o nome do jogo, que remete a um possível lugar pós-morte; e a presença de outra personagem, uma menina ajoelhada de costas para o “herói”. Em um determinado momento, o jogador alcança essa menina, mas um obstáculo aparece e os afasta. O personagem continua movendo-se para a direita (clássica configuração de jogos de aventura em 2D) sem parar, enfrentando novos desafios.

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[Spoilers a seguir: selecione e arraste com mouse para visualizar]
O fim do jogo ocorre ao conseguir transpor uma parede de vidro (o personagem é atirado por ela em câmera lenta). Após cair, caminha mais um pouco para a direita e encontra a menina no mesmo local, ainda de costas, olhando para baixo. Ele se aproxima. Ela, sentindo sua presença, treme e levanta a cabeça (como um pequeno susto) e corta para os créditos. Esses dois elementos permitem a criação de uma possível estrutura dramática, uma iniciativa apenas do jogador, pois não há nada explicando do que se trata aquele jogo: o personagem busca, no limbo, a mulher amada após uma experiência fatal. É uma possibilidade dramática criada quase inconscientemente na tentativa de dar um sentido lógico para a ação; atitude condenável para os ludólogos, entretanto, apenas enriquece a obra, pois não diminui a importância do lúdico ao mesmo tempo em que permite aproximação sentimental com o personagem e sua “apaixonada” jornada.

Há inúmeras interpretações possíveis: os dois são irmãos; os dois estão mortos e o menino procura pela irmã; o menino cruza o Inferno para chegar ao Céu; é uma trajetória de um menino se transformando em homem etc. De fato, a falta de uma narrativa direta é um atrativo do jogo, pois estimula o jogador a criar sua própria versão dramática para os eventos. A experiência total do jogo, assim, depende destas especulações, seja através de um ato privado (o jogador sozinho cria a narrativa), seja buscando versões em outras fontes (Wikipédia, amigos, sites de jogos etc.).

gameplay2Talvez seja a simplicidade de Limbo que instigue o jogador a buscar complexidade onde ela não existe. As “lacunas” são preenchidas independentemente da exposição direta ou, até, de sua própria existência! Diferente do que ocorre em jogos como God of War, em Limbo não há cutscenes, narradores ou textos explicativos, contudo, se o jogador quiser, é possível criar um ambiente dramático. Não com diálogos ou atuações, mas com a mera ideia de que por trás daquilo há um contexto fluido.

Sei que posso parecer um pouco “etéreo” no discurso, mas Limbo é, ou pode ser, um jogo metafísico, pois envolve conceitos abstratos e dogmáticos como a vida após a morte, o purgatório, o paraíso, o limbo e, se quiserem, até os outros 8 círculos do Inferno de Dante.. Nada mais justo que sua análise também o seja…